Blog

Orçamento4 min de leitura

Orçamento base zero: deixar de gastar o dinheiro que não se tem

Gonçalo Magalhães

No orçamento base zero, cada euro que vai entrar no mês recebe um destino antes de ser gasto: a prestação da casa, o supermercado, a poupança, o jantar de sexta. O orçamento está feito quando o rendimento menos tudo o que foi distribuído dá zero. A poupança também conta como destino. Dito de forma simples, deixa-se de gastar dinheiro que não se tem.

Origem

Nas empresas, o método ficou conhecido em 1970, quando Peter Pyhrr o descreveu na Harvard Business Review, depois de o aplicar na Texas Instruments. Em vez de partir do orçamento do ano anterior, cada despesa tinha de ser justificada do zero.1

Nas finanças pessoais, um dos grandes divulgadores foi o norte-americano Dave Ramsey. Durante muito tempo, ele defendeu o método dos envelopes: havia um envelope com o nome de cada categoria, e lá dentro ia o dinheiro que se podia gastar nessas despesas. Com dinheiro físico, esta divisão é muito clara, se bem que pouco prática no mundo digital contemporâneo.

Porque é que faz falta

Gastar dinheiro que não se tem é hoje um problema enorme. Os descontos, a pressão social, o «eu mereço», as subscrições, as Vinteds e as Amazons desta vida: a fricção para gastar mais do que se pode é quase inexistente.

Em 2020, 35% dos portugueses entre os 16 e os 74 anos tinham feito uma compra online nos três meses anteriores; em 2025 já eram quase metade.2

Compras online nos últimos três mesesPessoas dos 16 aos 74 anos, em %
202020212022202320242025
Portugal35,3%40,4%42,7%44,0%48,9%49,6%
União Europeia53,8%56,9%56,0%58,1%60,2%62,4%

Fonte: Eurostat (isoc_ec_ib20)

No fim de 2025, mais de 3,6 milhões de cartões de crédito tinham dívida, em média 1069 euros por cartão. O crédito renovável, que passa sobretudo pelos cartões, custava 17,9% ao ano, bem acima do crédito pessoal.3 As famílias sobre-endividadas acompanhadas pela DECO em 2026 tinham, em média, seis créditos e cerca de 27 500 euros em crédito pessoal e cartões, para um rendimento médio de 1400 euros por mês. Segundo Natália Nunes, coordenadora do Gabinete de Proteção Financeira da DECO, esses créditos «estão a ser usados para pagar despesas básicas, as contas do dia a dia e, em muitos casos, a renda da casa».4

Quanto custa o créditoTaxa anual (TAEG), no fim de 2025
  • Crédito renovável (sobretudo cartões)17,9%
  • Crédito pessoal11,8%

Fonte: Banco de Portugal, via ECO

Famílias sobre-endividadasValores médios aproximados das famílias acompanhadas pela DECO em 2026
  • Dívida em crédito pessoal e cartões27 500 €
  • Rendimento por mês1400 €

A dívida equivale a cerca de 20 meses de rendimento.

Fonte: DECO, via Dinheiro Vivo

Na prática

Não é preciso esperar que chegue o salário, porque já se sabe à partida quanto vem. Quem é freelancer pode fazer uma estimativa e ir ajustando.

No início do mês, já com uma estimativa do vencimento dos 30 dias seguintes, distribui-se o dinheiro pelas categorias de despesa do dia a dia, começando pelas mais importantes: o empréstimo da casa, o seguro do carro, a luz e a água, o combustível, as despesas dos miúdos.

Se sobrar dinheiro depois das categorias mais importantes, pode ir sem remorsos para objetivos financeiros para lá do pagamento de dívida (poupança para a reforma, por exemplo) ou extras, como jantar fora com os amigos ou presentes de aniversário.

Quando um «envelope» se esgota

A vida acontece, e há sempre alguma despesa inesperada, sobretudo no âmbito da vida familiar. Se o dinheiro orçamentado para o supermercado afinal não chega, ajusta-se e tira-se dinheiro de outra categoria para compensar. Por vezes, são precisos sacrifícios. Mas mais vale ser pragmático e fazer o que tem de ser feito do que gastar dinheiro que se não tem e ter um problema maior para rebentar nos dias seguintes.

O que muda com o orçamento base zero

Com o orçamento base zero, gastar dinheiro deixa de ser um peso na consciência, porque está tudo orçamentado e previsto. Deixa de haver «guess work», as prioridades são claras, os objetivos financeiros estão no bom caminho. A vida torna-se mais intencional.

O primeiro objetivo costuma ser um fundo de emergência. Depois podem vir outros, como amortizar a casa ou investir para a reforma.

Em 2025, 29,2% das pessoas em Portugal viviam em agregados sem dinheiro próprio para fazer face a uma despesa inesperada.5 O orçamento base zero é uma grande ajuda para construir almofadas financeiras de segurança.

Porque fizemos a SpendIntent

A SpendIntent tem um objetivo muito claro: devolver às pessoas o controlo do seu dinheiro. Experimentámos várias aplicações de orçamento, mas achámos que a experiência ficava sempre aquém do que poderia ser, além de não estar feita para o orçamento base zero. Em última análise, acreditámos que poderíamos trazer grandes benefícios para a vida das pessoas.

Há fricção em fazer contas, é verdade. A SpendIntent poupa uma grande parte desse trabalho. Os movimentos dos bancos entram sozinhos, e a app propõe categorias a partir do que se gastou nos últimos meses. Torna-se mais fácil que a decisão de para onde vai cada euro gasto seja controlada pelo dono desse dinheiro, e não por «guess work».

Fontes

  1. Peter A. Pyhrr, «Zero-Base Budgeting», Harvard Business Review, novembro–dezembro de 1970. ↩

  2. Eurostat, «Internet purchases by individuals» (isoc_ec_ib20): pessoas dos 16 aos 74 anos cuja última compra online foi nos três meses anteriores, 35,3% em 2020 e 49,6% em 2025. ↩

  3. Banco de Portugal, «Cartões de crédito em Portugal: quantos existem, quantos são usados e quanta dívida acumulam?», 20 de maio de 2026, dados de dezembro de 2025, como citado no ECO. TAEG do crédito renovável 17,9%; crédito pessoal 11,8%. ↩

  4. Dinheiro Vivo, «Famílias sobre-endividadas estão a pedir cada vez mais créditos pessoais para pagar despesas básicas», 22 de junho de 2026, com dados da DECO. Responsabilidades sem crédito à habitação. ↩

  5. Eurostat, «Inability to face unexpected financial expenses» (ilc_mdes04): 29,2% em Portugal em 2025, igual à média da UE. ↩

Preço de fundador.

Se subscreveres até 31/03/2027, pagas 59,99 € por ano enquanto renovares. Depois dessa data, o plano anual custa 69,99 €.

Recebes as novidades da SpendIntent, incluindo o dia do lançamento. Política de privacidade.